Bolívia às vésperas da eleição: Evo implodiu o MAS, a esquerda se canibaliza e a direita só assiste de camarote
Enquanto Morales clama “voto nulo ou nada!”, seus ex-companheiros viram figurantes de um reality político. No palco principal, empresários da velha guarda e políticos reciclados aguardam a entrega das chaves do Palácio Quemado
LA PAZ – A Bolívia se prepara para as eleições de 17 de agosto com a energia política de uma ceia de Natal em família: todo mundo brigado, os presentes trocados e ninguém querendo lavar a louça. O ex-presidente Evo Morales, impedido de concorrer pela Justiça e atolado até o pescoço em denúncias (que ele nega, claro), decidiu convocar os eleitores ao voto nulo – porque se não é pra ser ele, então que não seja ninguém.
Enquanto isso, a esquerda boliviana, que governava há quase duas décadas no piloto automático do MAS (Movimento ao Socialismo), resolveu competir em uma modalidade inédita: autodestruição eleitoral em massa. Tem ex-aliado chamando o outro de traidor, prefeita desistindo da campanha por “falta de estrutura” e candidato indicado com menos intenção de voto que cantor eliminado na primeira fase do “La Voz Bolivia”.
O presidente Luis Arce, cuja popularidade derrete mais rápido que sorvete no Salar de Uyuni, jogou a toalha antes mesmo de entrar no ringue. Lançou seu ex-ministro, Eduardo De Castillo, que não conseguiu nem formar fila nas pesquisas. Já Andrónico Rodríguez, ex-queridinho de Evo e atual desafeto declarado, decidiu trocar de partido e virou alvo do manual “Como perder 10 pontos em 10 dias”. Evo, generoso como sempre, retribuiu o gesto com o título carinhoso de “traidor”.
Com a esquerda brigando pela posse dos escombros, a direita só observa, sem precisar suar. O empresário Samuel Medina lidera as pesquisas com a tranquilidade de quem já sabe onde fica o gabinete presidencial. Ao seu lado, o veterano Jorge “Tuto” Quiroga tenta convencer o eleitorado de que ainda está vivo politicamente — o que, por incrível que pareça, tem funcionado.
Ambos somam cerca de 47% das intenções de voto e, se a matemática eleitoral não pregar uma peça, o segundo turno pode acontecer pela primeira vez desde que a Constituição plurinacional foi implantada em 2009. Isso, claro, se a votação não for invalidada por excesso de nulos militantes patrocinados por Evo.
Afinal, estamos falando de um país onde o mesmo partido que prometeu refundar o Estado pode, por obra do ego de seu líder, acabar refundando o próprio fracasso. Se a política boliviana fosse um prato típico, neste momento estaria servida como sopa de traidores com guarnição de egos fritos, enquanto a oposição se lambuza no banquete do poder.
Resta saber se o novo presidente, seja lá quem for, vai governar o Estado Plurinacional ou administrar os destroços de um MAS que virou meme.
