Verdade Duvidosa

Fake News, mas nem tanto.

Evento literário com cheiro de livro novo e gosto de oposição foi classificado como “politizado demais”. E a prefeitura? Preferiu cancelar do que correr o risco de alguém recitar Drummond e terminar com “Fora, qualquer um!”

SÃO PAULO – A tradicional e já subversivamente charmosa Festa Literária Pirata das Editoras Independentes (Flipei), que iria atracar na próxima quarta-feira (6) na Praça das Artes, teve seu navio afundado pela prefeitura de São Paulo antes mesmo de zarpar. E sem direito a salva de tiros — apenas com uma notificação formal que chegou com menos antecedência do que convite para churrasco em grupo de WhatsApp.

Com mais de 220 editoras confirmadas, debates, shows, lançamentos de livros e até atividades infantis (que, até onde se sabe, não envolviam lavagem cerebral), a Flipei estava prontinha para mais uma edição gratuita e plural. Mas aí veio a Fundação Theatro Municipal com a broxante notícia: evento cancelado por “uso político do espaço público”. Ou, como diria um fiscal de alma sensível, “muito blá-blá-blá progressista para pouca Praça das Artes”.

Segundo a Fundação, o evento tinha “indisfarçável viés eleitoral”. Afinal, em 2025, falar de livros, democracia e minorias é praticamente um ato de campanha. No entanto, a rescisão do contrato, que exigia 15 dias de antecedência, foi comunicada com menos de uma semana do evento. Porque, claro, literatura política é inaceitável, mas descumprir contrato público pode.

Os organizadores da Flipei, entre indignação e ironia, classificaram a medida como “censura pura e simples” — ou “edição relâmpago de 1984”, com produção executiva da Secretaria Municipal de Cultura. Em nota, anunciaram medidas judiciais e o reposicionamento do evento: agora, a festa será descentralizada e acontecerá em espaços como o Espaço Cultural Elza Soares, o Armazém do Campo, o Instituto Luiz Gama e o bar Sol y Sombra — locais que, diferente da prefeitura, ainda acham que livros não mordem.

A nova programação continua nos mesmos dias e horários, porque se a caneta do poder corta, a tinta da resistência responde. Com mais de 40 debates nacionais e internacionais, a Flipei segue viva — só que agora com mais charme underground e cheiro de café passado em coador de pano.

E a lição que fica? Em tempos de cancelamento institucional, talvez o mais revolucionário que se possa fazer seja abrir um livro. Ou melhor: imprimir um. Independente, claro. 📚🔥✊

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

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