“Anistia, Trump e tornozeleira: o combo dominical da Paulista”
Manifestantes ocupam duas quadras em São Paulo para pedir perdão a golpistas, apoiar tarifas dos EUA e clamar pelo impeachment de Alexandre de Moraes — tudo sem a presença do ídolo que não pôde sair de casa
Nem missa de domingo, nem passeio no parque: o cardápio do dia 3 de agosto, na Avenida Paulista, foi protesto temperado com clamor patriótico, pitadas de complô internacional e um toque de nostalgia bolsonarista. Cerca de duas quadras foram tomadas por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro — ou melhor, por saudades dele, já que o protagonista da manifestação não compareceu. Cumprindo medidas cautelares impostas pelo STF, o ex-presidente ficou em casa, sob o olhar atento de sua tornozeleira eletrônica, como manda o figurino judicial.
Comandado por lideranças políticas da direita e o onipresente pastor Silas Malafaia, o evento pediu anistia aos envolvidos nos atentados de 8 de janeiro de 2023 — aquele Carnaval fora de época em que os foliões invadiram os Três Poderes para tentar cancelar o governo eleito. Aparentemente, depredar patrimônio público e conspirar contra a democracia virou item passível de perdão coletivo. Porque quem nunca tentou um golpe de Estado num domingo à tarde, não é mesmo?
Mas não parou por aí. Os manifestantes, muitos com a camiseta da Seleção (edição golpe), também empunhavam bandeiras dos Estados Unidos — porque nada representa mais o patriotismo brasileiro do que torcer por sanções vindas de fora. O destaque foi o apoio fervoroso ao presidente norte-americano Donald Trump e suas tarifas de 50% sobre o Brasil, um ato de amor tarifado que deixou qualquer economista nacional com taquicardia.
No meio do fervor, ecoaram também gritos pelo impeachment e até prisão de Alexandre de Moraes, o ministro do STF que virou antagonista oficial do enredo bolsonarista. O pedido é simples: liberdade para os amigos, punição para quem cumpre a lei.
Eduardo Bolsonaro, o deputado com crachá diplomático improvisado, foi ovacionado por sua atuação como agente internacional do pai, numa peregrinação por Washington que a PGR chama de “lobby golpista”, mas os fiéis descrevem como “missão divina”. No entanto, nem ele apareceu por lá — talvez ocupado com reuniões republicanas ou com o GPS da tornozeleira do pai.
A PM e a prefeitura não divulgaram estimativas de público, mas garantem que o policiamento foi reforçado. Afinal, nunca se sabe quando uma tarde de protesto pode terminar em quebra-quebra institucional.
E assim, entre pedidos de anistia, acenos ao Tio Sam e ausências ilustres, a Paulista teve seu típico domingo — só que com um pouco mais de ironia, menos democracia e muito mais bandeiras dos Estados Unidos.
