Congresso homenageia “A Voz do Brasil”, o programa que ninguém ouve, mas todo mundo respeita
Com direito a selo dos Correios, sessão solene e até trilha sonora repaginada, programa mais longevo do rádio nacional completa 90 anos e segue firme: informando, resistindo e, claro, interrompendo a novela do rádio
Brasília — No retorno triunfal do recesso parlamentar, os nobres congressistas decidiram começar os trabalhos com o que realmente importa para o país: uma sessão solene em homenagem aos 90 anos de A Voz do Brasil, o programa de rádio mais ouvido por quem está sem sinal de celular no interior e por motoristas presos no trânsito com o Bluetooth quebrado.
“A Voz do Brasil é uma instituição da democracia”, declarou solenemente Tiago César dos Santos, representante da Secom, ignorando o fato de que boa parte da população associa o programa àquele momento em que a música para, a alegria vai embora e você se vê obrigado a ouvir notícias do Congresso às 19h em ponto.
Já o senador Jorge Kajuru (PSB-GO), que presidiu a sessão, relembrou com emoção sua infância regada a A Voz do Brasil no almoço. Sim, você não leu errado: o senador ouvia A Voz no almoço. Provavelmente por isso se tornou político — trauma de infância.
A Empresa Brasil de Comunicação (EBC), que mantém o programa vivo desde a era Vargas (sim, de Getúlio mesmo), exibiu orgulho ao lembrar que “mantém acesa essa tocha”. Resta saber se é a tocha da informação ou a da resistência auditiva dos brasileiros.
Tem selo, tem moeda, só falta a action figure
Para marcar o momento histórico, os Correios lançaram um selo comemorativo — ótimo para quem ainda manda carta ou quer colar nostalgia na geladeira. A Casa da Moeda também vai emitir uma moeda comemorativa. Spoiler: ela não será aceita na catraca do ônibus, mas talvez sirva para pagar um café e iniciar uma conversa sobre como “o rádio de antigamente era melhor”.
E não para por aí: A Voz do Brasil ganhou nova identidade visual, trilha sonora repaginada (mas ainda com O Guarani, porque tradição é tradição) e agora chega com tudo nas plataformas digitais como Spotify, Amazon e Apple Podcasts. Ou seja, agora você poderá ignorar o programa também no streaming, com toda a conveniência da modernidade.
A democracia interrompida
Criado em 1935, o programa já sobreviveu a ditaduras, mudanças de governo, queda do Orkut e da MTV Brasil. Em 90 anos, nunca saiu do ar — nem quando o rádio era de válvula, nem quando a gente gritava “alô” no MSN. Seu maior feito, porém, continua sendo o de unir o país inteiro em um único pensamento às 19h: “Cadê minha música, meu Deus do céu?”.
Segundo os parlamentares, homenagear A Voz do Brasil é “reconhecer sua importância na própria história moderna do Brasil”. Uma história que, convenhamos, sempre começa com a mesma trilha, a mesma locução e o mesmo sentimento de que a música que você queria ouvir acabou de ser sequestrada pelo Estado.
Vida longa à Voz do Brasil, a lenda do rádio que ninguém pediu, mas todo mundo respeita.
📻 E agora, em Brasília, 19 horas…
Foto:José Cruz/Agência Brasil
